O Brasil poderia ser mais atraente aos investimentos para exportação
Maria Fernanda Teixeira
Os movimentos globais na área de serviços continuam numa velocidade muita mais rápida do que poderíamos todos imaginar. Falo do segmento de serviços, mas algo similar ocorre com produção de produtos. Salientando que a rapidez com que uma empresa pode estabelecer um segmento de serviços em um outro país é extremamente mais fácil e veloz do que instalar uma fábrica de produtos. Pretendo neste artigo apenas comentar os movimentos na área de serviços.
Não há muitos anos todos se surpreenderam quando algumas empresas de serviços decidiram investir na Índia, abrindo empresas para executar desenvolvimento de softwares, serviços de apoio a clientes ("call centers") e outras que executam processos como de finanças, recursos humanos e outros. Os grandes incentivos para essa corrida foram a disponibilidade de um grande número de jovens estudantes, saindo das universidades com uma ótima formação, tendo o inglês como segunda língua e para que a motivação fosse ainda maior, os salários extremamente baixos, se comparados com os dos países desenvolvidos.
Como tudo se copia com muita rapidez no mundo dos negócios, houve uma migração maciça de empresas para a Índia, de modo a reduzir custos e se tornarem mais competitivas. Essa grande onda causou uma inflação nos salários dessas funções mais requisitadas, fazendo com que a disputa por funcionários crescesse a ponto de hoje serem comparados aos de países das Américas Latina e Central.
Outro fator ainda mais importante: no início o sotaque dos indianos era aceito, porque era algo novo e curioso. Com o passar dos anos, as pessoas que entraram em contato com esses “callcenters” na Índia passaram a se incomodar com o sotaque e com a dificuldade de contato em razão do fuso horário, o que levou várias empresas a procurarem por outros países alternativos.
A China seria a outra coqueluche, mas o que se tem notado é que aquele país tem recebido vultosos investimentos no setor na produção industrial e menos em empresas de serviços.
Considerando ainda a Ásia, a outra grande descoberta foi a República das Filipinas, um país com uma política estável, onde se identificou também uma mão-de-obra bastante qualificada e com um inglês bastante mais neutro, que com pouco treino em fonética os filipinos falam um inglês bastante próximo ao americano.
Em dois anos houve uma explosão de novas empresas sendo estabelecidas naquele país, que ainda tem bastante mão-de-obra qualificada disponível, com salários baixos e jovens extremamente motivados pela oportunidade do primeiro emprego. Vale salientar que a República das Filipinas tem como presidente uma mulher, que tem feito excelente trabalho em criar iniciativas bastante atrativas de isenção de impostos e na redução de burocracia para o estabelecimento de empresas, atraindo dessa maneira muito investimento de vários países, principalmente dos EUA.
Algumas empresas americanas, cansadas de receber reclamações de seus clientes, essencialmente pelo sotaque do ingglês,no caso dos serviços prestados na Índia, decidiram por retornar parte dessas operações para os EUA, pelo menos para atender aos seus clientes VIP. Mas a procura por outras regiões que possam prover serviços de qualidade com custos baixos prossegue com um grande sentido de urgência.
A América Latina agora é a bola da vez, uma região com estabilidade política e econômica na maioria dos seus países, com uma grande população carente de novas oportunidades de empregos, apresentando salários bastante baixos se comparados com os da Europa e dos Estados Unidos. Países como Argentina, México, Costa Rica, Panamá, República Dominicana têm sido muito procurados.
Os fatores mais importantes para selecionar o país onde investir são: governo e economia estáveis, quantidade e qualidade da formação educacional dos jovens. Outro fator qualificador é a quantidade e qualidade de jovens que falam inglês com fluência e com um sotaque que seja menos estranho. Com pequeno investimento em aprendizado fonético, esses jovens estão preparados para executar suas atividades como se estivessem sentados nos escritórios dos EUA, do Canadá e de alguns países da Europa.
Como a América Latina pode aproveitar essa onda? Os governos têm de ter ou criar imediatamente agências ou departamentos que tenham metas para atrair esses investimentos, diminuindo a burocracia na criação de novas empresas, reduzindo impostos para exportação de serviços e criando iniciativas nas escolas para promover o desenvolvimento mais rápido da língua inglesa.
E o Brasil? Hoje parece que temos um longo caminho a seguir para atrairmos empresas de serviços que tenham o objetivo de exportar. Embora haja já um mercado significativo de desenvolvimento de software, esse esforço tem sido feito pelas empresas que já estão estabelecidas no País, que de alguma forma tentam exportar essa qualificação tão valiosa da mão-deobra brasileira. Muito tem de ser feito para colocarmos o Brasil no mapa dos países atrativos para exportação de serviços, começando pela definição de prioridade por parte do governo.
Fica aqui a sugestão de criar uma agência para exportação de serviços, que juntamente com o setor privado deveria rapidamente estabelecer algumas iniciativas como isenção de alguns impostos, redução de custos trabalhistas, acordos com universidades para facilitar o primeiro emprego e rapidez na abertura de empresas.
Com poucas iniciativas, com certeza, o Brasil, em um ano ou dois, poderá receber muitos investimentos no segmento de exportação de serviços. Muitos empregos vão ser criados para nossos jovens e muitas divisas vão ser geradas para o País. Presidente das Executivas de SãoPaulo e presidente para América Latina - ICT Group. Próximo artigo da autora em 11 de setembro
Presidente das Executivas de São Paulo e presidente para América Latina - ICT Group. Próximo artigo da autora